Nos últimos dois ou
três anos, o Brasil viveu uma situação perigosa de excesso de demanda motivada,
principalmente, pelos gastos do governo e medidas de afrouxamento do crédito.
Quando o governo gasta mais ou reduz os tributos e afrouxa o crédito, ou seja,
libera o crédito, o resultado é mais dinheiro na economia. As pessoas então
gastam mais, compram mais coisas e em teoria a produção aumenta, aumentando a
renda agregada (PIB). O governo também, populista, influenciou de modo forçado
a redução das tarifas de energia, preço da gasolina, e redução da taxa básica
de juros. Em economia, tudo que é forçado não dá certo, gera desconfiança e
esta gera baixas expectativas. Feita a bagunça citada, os consumidores partiram
para o consumo desenfreado. O pessoal mais pobre, que nunca teve condições de
comprar bens duráveis (carro, geladeira, etc) partiu para o consumo motivado
principalmente pela oferta de crédito a juros baixos. É certo também que a
política de valorização do salário mínimo, muitas vezes acima da inflação,
implementada pelo governo Lula, também deu ganhos reais de renda à classe mais
pobre e a chamada classe C. Mas esse aumento na renda não acompanhou a
produtividade, é como se o trabalhador ganhasse aumento, mas não merecesse, é como
se o trabalhador produzisse menos ganhando mais. Isso achata o lucro do
empresário, mexe negativamente com suas expectativas e ainda, alimenta a
inflação. Alimenta a inflação porque, além é claro do efeito direto do trabalhador
estar recebendo mais e portanto gastando mais, o empresário tem que colocar na
conta do preço do produto final, o salário alto do trabalhador.
Então,
em 2012,2013 e até o início de 2014, o Brasil viveu um período de aparente crescimento,
digo aparente porque não foi um crescimento estruturado, foi mais um voo de
galinha, porque o Brasil cresceu mais motivado pela demanda (compra de bens) do
que pelo incremento na oferta. Por incremento na oferta, entende-se
infraestrutura, investimentos consistentes e perenes em máquinas e equipamentos,
desenvolvimento em tecnologia para aumentar produtividade, enfim, toda ação que
envolva de forma consistente o aumento na capacidade de produção do país. Mas
por que a oferta não acompanhou a demanda? Há vários fatores, um deles foi a
falta de confiança do setor produtivo nas medidas tomadas pelo governo para o
incentivo da demanda. O empresariado sabe que baixar juros de forma forçada,
diminuir tarifas de preços administrados também de forma forçada, quase sempre
não acaba bem. Além disso, o setor produtivo não via investimento concreto em
infraestrutura. E se o empresariado desconfia, ele não investe e a oferta não
cresce, não acompanha a demanda. Veja no gráfico 1 abaixo, que a curva de
demanda ultrapassa em muito a da oferta a partir de 2009. Ora, se tem mais
gente demandando produtos do que gente ofertando, os preços sobem, essa é a lei
mais básica da economia É certo que parte dessa demanda não atendida
internamente, foi atendida via produtos importados, mas boa parte alimentou
alguma inflação que estamos vivendo hoje. Os dados são do IBGE.
Para
muitos economistas (e não economistas também) esse cenário forçado de tarifas
administradas baixas, juros forçosamente baixos e demanda alimentada pela
oferta de crédito e gastos do governo, não poderia durar muito tempo. Pouco tempo
após as eleições de 2014, o Governo fez o que tinha prometido não fazer, mas
que era inevitável. Ajustou as tarifas, principalmente de energia e
combustíveis. As empresas de energia e a Petrobrás estavam durante algum tempo
amargando prejuízos, porque não podiam repassar o aumento para o consumidor
para não estragar os planos de reeleição da presidenta Dilma. Passada a
eleição, o Governo fez as suas contas e agora luta para não aumentar os gastos.
Deixou o Banco Central do Brasil - Bacen funcionar de maneira mais independente
no combate a inflação, ou seja, “permitindo” que este aumentasse o juros pra
segurar parte do consumo e demanda, principalmente a demanda por serviços, para
segurar a inflação e está na tentativa de mudar os rumos de sua política
econômica. O pior é que nesse momento vemos uma inflação mais de custos do que
de demanda. A Presidenta segurou tanto o preço da energia e combustível, que
quando deixou o mercado funcionar, os preços se elevaram muito. E combustível e
energia são insumos de quase tudo que se produz, então o aumento destes é
repassado para quase tudo que consumimos. E a inflação é um terror
principalmente para aqueles de baixa renda, pois não tem meios de se defender
com aplicações financeiras, etc. Estes são os primeiros a serem atingidos pela
alta dos preços, porque perdem seu poder de compra na mesma proporção da
inflação.
Como
dito, o Governo agora busca um ajuste nas contas a fim de sinalizar para o
mercado que a “bagunça” acabou. Busca sinalizar que é capaz de pagar e
administrar a dívida pública, segurar os gastos que alimentaram a inflação e
reverter os benefícios fiscais que outrora corriam mais frouxos. Tarde demais.
A Presidenta Dilma demorou a tomar atitude por causa das eleições, o que
deteriorou mais ainda o cenário. Ao liberar as tarifas de energia e combustível
de uma vez, o Governo fez só alimentar a inflação que já se avizinhava devido
ao descompasso entre oferta e demanda. Para piorar o cenário, foi descoberto um
rombo gigantesco nas contas federais, devido a gastos excessivos e grandes
benefícios fiscais, o que gera mais desconfiança no mercado com relação à
dívida pública e sua capacidade de pagamento. Essa desconfiança fez o Real se
desvalorizar em relação ao Dólar e o câmbio disparar. Mais um alimento para a
inflação. Preços em alta, baixa no poder de compra das famílias e falta de
expectativa do empresariado, geram desemprego. E é o que está acontecendo no
momento. A indústria está demitindo porque as pessoas não estão comprando como
antes, seja pra economizar para um futuro incerto, seja porque a inflação corroeu
parte de seu poder de compra. O fato é que se as pessoas não compram, não há
necessidade de se produzir, e se não se produz, demite-se. O pior é que as
consequências do desemprego mais cruéis ainda estão por vir. O pessoal que
perdeu emprego ainda vive com o seguro-desemprego e parte da indenização, mas e
quando isso acabar? (No momento em que escrevo, a Usiminas anunciou a demissão
de 4000 funcionários de uma só vez).
Pode
ser que a recuperação venha por duas vias: uma do pelo câmbio desvalorizado e
outra pela queda no salário real. A desvalorização do Real faz com que nossos
produtos fiquem mais baratos no exterior, o que pode surtir um aumento na
demanda por eles. Isso pode gerar um incremento na renda do setor exportador, e
isso é bom. Por outro lado, os produtos importados ficam mais custosos, porque
o Dólar está mais caro, e isso inibe as importações. Pode haver um movimento de
substituição das importações, ou seja, produzir aqui o que ficou caro importar.
A outra via diz respeito à queda da massa salarial. Como o desemprego está
aumentando, as pessoas teoricamente aceitam trabalhar por menos, porque
perderam seu poder de barganha que tinham anteriormente. E ainda, os que estão
empregados, com medo de perder o emprego, aceitam reajustes abaixo da inflação
ou nem pedem reajustes. O custo da mão-de-obra para indústria cai, o que
teoricamente pode motivar mais investimento por parte do empresário, porque
pode aumentar sua taxa de lucro. Mas o principal componente para reestabelecer
a confiança do empresariado é mesmo o ajuste fiscal, porque vai sinalizar que a
economia está em vias de ser arrumada. Feito o ajuste, as expectativas melhoram,
e estas podem se traduzir em mais investimento, mais emprego e mais renda.
Pode-se observar no gráfico 2 que as exportações veem de fato aumentando, junto
com o saldo da balança comercial, e o salário real vem em queda. Vamos torcer
para que esses fatores deem ao empresariado alguma boa perspectiva para que aumente
os investimentos, aumentando assim a renda nacional e gerando algum
crescimento.
É
certo que 2016 ainda será um ano muito difícil, mas alguma luz no fim do túnel
já pode começar a ser vislumbrada. A renda adicional do setor exportador pode
gerar mais emprego, tendo em vista também a desvalorização do salário real,
conforme já mencionado. O saldo da balança comercial geralmente demora mesmo a
reagir de fato ao câmbio desvalorizado, não reage imediatamente. Nosso câmbio
começou a desvalorizar fortemente no início do ano e somente agora vemos que as
exportações iniciaram um movimento de subida. É claro que as exportações
dependem também de um cenário externo favorável para evoluírem, e que a China
vem crescendo menos do que outrora. No entanto, nossa moeda desvalorizou muito,
nossos produtos e principalmente commodities estão muito baratos, vamos torcer
por uma melhora também no cenário internacional e acompanhar se a via externa
pode nos dar algum refresco em 2016. Quanto à inflação, será muito difícil
tê-la dentro da meta de 5% no ano que vem. Muitas concessionárias de energia
sinalizam que precisam subir mais suas tarifas, a gasolina também subiu
novamente há pouco e se a CIDE voltar, vai subir ainda mais. Tudo isso
contamina todos os demais preços da economia. O Dólar parece já estar
precificado para todo o ano que vem, o mercado já antecipou toda a expectativa
ruim do próximo ano para o presente, então ele deve flutuar mesmo em torno de
R$ 4,00 durante 2016 como está acontecendo agora, o quê continuará sendo bom
para o setor exportador. Quanto à criação de empregos, a coisa ainda fica muito
ruim porque o empresário só vai contratar na medida em que tiver certeza de que
valera à pena. As contratações são custosas e demandam tempo. O Governo terá
que se desdobrar pra criar um ambiente favorável às contratações, dificilmente
isso acontecerá antes do fim de 2016. Pode ser que haja alguma boa notícia
nesse campo no setor exportador, mas certamente será insuficiente pra compensar
as demissões que ocorreram e continuam ocorrendo em 2015. O ajuste fiscal
proposto pelo Ministro Levy será bem difícil de ser implementado, logo o superávit
primário proposto de 0,7% do PIB não deverá ocorrer, em grande parte também
pela queda na receita tributária consequência da baixa atividade econômica. Diminuir
o déficit e os gastos do Governo já será grande coisa, e isso parece que
acontecerá.
Enfim,
2016 será ainda bem difícil, mas devemos começar a enxergar alguma reação. Geralmente
a base de comparação é o ano anterior, e 2015 vem sendo um ano muito ruim, então
a tendência é que comecemos a enxergar melhores números.


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